Cine-debate: o que um filme fictício expõe sobre nossa sociedade atual

Texto: Rafaella Vieira 

Em “Pode o subalterno falar?”, Gayatri Spivak analisa a história de mulheres indianas e a imolação de viúvas. Essa condição nos coloca à luz do dia sobre lugar da mulher no contexto pós-colonial e e as formas de repressão dos sujeitos subalternos.

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Exibição do filme “The Help”pelo 5ª Cultural no Centro Cultural da UFSJ. Foto: Bianca Furtado

Nas sociedades ocidentais atuais, como a brasileira, isso é diferente? Haveria espaço para resistência diante da força do discurso hegemônico?

Em The Help, Histórias Cruzadas no Brasil, temos essa visão. Os sentimentos são diversos: indignação, fúria, dor. Mas apesar de ser um drama, há seus sentimentos bons, por exemplo, Minny e sua famosa torta de chocolate.

Baseado em fatos reais, o filme nos mostra como a segregação racial e a luta pelos direitos civis no Mississippi foram fatos intensos. A principal questão levantada era como as empregadas negras desenvolviam seus “papeis sociais” dentro das casas de seus empregadores: além de cuidar de todo serviço braçal, eram mães. Elas criavam os filhos dos patrões, passavam os valores e davam a atenção que não viam dos pais. “Você é amável. Você é inteligente. Você é importante”, já dizia Aibileen.

A luta por direitos iguais está em pauta há muito tempo. O Estado do Mississippi, nos Estados Unidos, já foi palco de muitas das retratações sobre a desigualdade racial. Fonte do racismo e da intolerância, o Estado com sua maioria de brancos classistas, lutou intensamente contra a igualdade. Para termos uma ideia, o estado sulista oficializou fim da escravidão apenas em 2013. Fatos como o de James Meredith, o primeiro negro a entrar na Universidade de Mississippi é uma mostra de como foi difícil a busca por igualdade.  Veja a história aqui.

Abrimos esse mês de março com o foco na mulher. O dia Internacional da Mulher foi comemorado por muitos como uma vitória. De fato, tivemos mudanças, mas que ainda não são tão grandiosas. Casos como o de Minny Jackson, personagem do filme, que é agredida pelo marido, retrata a violência doméstica. As desculpas são as mesmas: eu escorreguei e bati o rosto; foi apenas um momento de descontrole… E nessa turbulência, temas como o feminismo crescem.

The Help é um filme extremamente completo. Não é atoa que foi aclamado pelas críticas. Se pararmos para observar todas as veiculações que retratam a vida das empregadas encontramos vários exemplos.

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Cenas dos filmes “The Help” e “Que horas ela volta?”. Imagens da internet. 

Logo aqui no Brasil, temos o filme “Que horas ela volta?”, de Anna Muylaert. A história de Val, Regina Cassé, empregada doméstica que recebe sua filha, Jéssica, Camila Márdila,  na casa do patrões conta um drama familiar. O filme é um espelho de como estão enraizadas as posições de servidão. Jéssica chega na casa e destabiliza a todos: seus “modos” não condizem com sua classe, com sua posição. Ela não tem direitos, situação presente também em The Help. Outra fator comum são as relações de mães que as empregadas tomam. Val deixou a filha em Pernambuco e veio para São Paulo. Na casa dos patrões, ela criou Fabinho, Michel Joelsas, foi babá e confidente do menino. Quando sua filha chega à São Paulo para estudar, Val não a reconhece.

Saindo da ficção, entramos no mundo real. Na última manifestação do dia 13 de março, viralizou na internet a imagem da babá cuidado de bebês e os patrões a frente. Quase como coincidência, a babá é negra, e ela tem filhos. O mesmo fato é vivido por inúmeras mulheres e, por ser geral, não quer dizer que é normal.

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Veja também a lista dos 20 filmes sobre racismo.

Os negros assumem posições desfavorecidas na sociedade. Em pleno século XXI, temos casos de racismo aos montes. A retratação de The Help nos mostra como estamos retrocedendo ou ainda deixa a dúvida: evoluímos?

Exemplos musicais também não faltam. Emicida, em Boa Esperança, já deu a letra: “O trabalho liberta, ou não”.  Empregados fazem reféns seus patrões. Os motivos são culturais: a “mulata” que chama atenção do patrão, o empregado negro que não pode ter voz. E dessa maneira a revolta cresce silenciosamente.

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Cenas dos clipes das músicas “Boa Esperança” e “Formation”. Imagens da internet. 

Recentemente, a cantora norte-americana, Beyoncé, deixo muitas pessoas de boca aberta. Ela saiu da posição de queridinha, com letras suaves, para cantar seu lançamento, Formation. Com uma letra pesada, ela mostra como negros deveriam sair – e ela já saiu – da posição de subordinados. Fato interessante presente no clip é a relação da polícia e os negros.  “Stop Shooting Us” (Parem de atirar em nós) é uma parte que retrata como a polícia age com truculência e é uma presença periférica. Em Histórias Cruzadas, fica claro como a polícia fica a mercê dos brancos; é o caso da personagem Hilly Holbrook – para lembrar, é a mesma que era contra o uso do mesmo banheiro entre empregadas e padrões e por comer a torta de Minny.

O trabalho de reunir histórias e contá-las ficou a cargo da senhorita Eugênia – mais uma criança branca criada por uma empregada. Ela desconstrói várias ideias machistas: ela saiu de casa e se formou Jornalista; não procura um casamento para ter instabilidade e não se diminui frente a um homem. Ela conta uma história que faz a sociedade se envergonhar.

Todos os registros das empregadas são dramáticos. Desde daquelas que exaltavam os padrões, que achavam que tinham direitos e que no final, viam como a situação era contrária. Estar nesse contexto faz com que as percepções de ser um subordinado seja algo normal, pois não há como agir com crítica.

Deixo para o final, a protagonista, Aibileen Clark, Viola Davis. Seu personagem desperta comoção, temos a imagem de uma mulher triste – fato associado à morte do filho. Aibileen é mais uma empregada negra de Jackson, mais uma mãe. É curioso com ela toma a iniciativa de relatar sobre sua vida como empregada para Eugênia. No primeiro instante ela recusa, mas depois vê que ela faz parte daquele meio, onde a sua integridade é colocada em voga.

Não é atoa de Viola foi indicada para vários prêmios como o de melhor atriz, entre eles o Oscar. Sua personagem representa a  força frente ao movimentos segregacionistas, sobre a perspectiva de uma mulher crente e que vê a real causa de injustiças. Viola já ganhou outros prêmios pela suas atuações, mas o quê mais se destaca é o Emmy Award de Melhor Atriz em Série Dramática, onde ela deu um discurso incrível que reverbera de modo único todas as conquistas, as mudanças e a representação, sobre oportunidades, sobre movimentos e sobre ser negro. Confira abaixo: 

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